Pais aprendem com os filhos e levam segurança digital para a mesa de jantar

 Livros e projetos voltados à infância transformam a segurança online em tema cotidiano dentro das famílias e estimulam o diálogo entre gerações

Quase um quarto dos brasileiros com mais de 16 anos relata ter sido vítima de algum golpe digital nos últimos 12 meses, segundo o DataSenado, em um cenário em que fraudes no sistema financeiro somaram R$ 10,1 bilhões em perdas em 2024, de acordo com números citados pela Febraban. No meio desse avanço, iniciativas criadas para orientar crianças têm produzido um efeito colateral: reeducar adultos que não dominam práticas básicas de proteção online.

É o caso do projeto O Cibernauta, idealizado por Daniel Meirelles, especialista em transformação digital pelo MIT, e pelo economista Eduardo Argollo. Pensado para crianças de 6 a 10 anos, o livro “O Cibernauta em a Super Senha Secreta” foi desenhado para envolver pais e filhos na mesma conversa, com situações do cotidiano digital e linguagem lúdica.

O desconhecimento de adultos na segurança digital aparece em hábitos corriqueiros, em 2025, a NordPass voltou a apontar a permanência de senhas previsíveis no Brasil, com combinações simples como “admin” e sequências numéricas entre as mais usadas, um comportamento que facilita invasões e golpes de engenharia social,  sinal de que o básico segue sendo o elo mais frágil, mesmo com o avanço de ferramentas de segurança. “O Cibernauta nasceu da necessidade de ensinar nossas crianças e também os adultos a navegarem com segurança. Hoje tudo passa pelo digital: finanças, estudos, lazer”, afirma Meirelles. 

Para Eduardo Argollo, o projeto foi estruturado para virar rotina familiar, não apenas um conteúdo escolar. “Queremos que as famílias aprendam juntas, de forma leve, sobre como se proteger. A ideia é transformar o aprendizado técnico em algo acessível”, diz. A escolha do tema “senhas”, no primeiro volume, mira um ponto de contradição dentro de casa: adultos cobram cautela das crianças, mas mantêm práticas frágeis, como repetir combinações em diferentes aplicativos ou usar palavras óbvias.

A aposta no diálogo dentro de casa ganha relevância em um país em que a conexão chega cedo; a história infantil vira ponto de partida para perguntas das crianças que obrigam os adultos a responder. “Os pais acabam aprendendo junto”, afirma Argollo, ao descrever a intenção de provocar conversas que atravessam gerações e alcançam também avós e cuidadores. Na prática, o livro funciona como um roteiro: abre espaço para discutir golpes comuns, links recebidos por mensagem e a regra de procurar um adulto diante de qualquer situação suspeita.

O livro dialoga com um problema que não se restringe à infância. Ao trazer esse “básico” para o universo infantil, projetos como O Cibernauta tentam criar repertório antes da primeira fraude e, no caminho, atualizar a alfabetização digital de quem orienta as crianças.

Ao estimular perguntas e conversas dentro de casa, o livro reposiciona a tecnologia como tema compartilhado entre gerações. Crianças passam a questionar hábitos dos adultos, enquanto pais e responsáveis se veem obrigados a explicar escolhas, revisar práticas e admitir dúvidas. Esse diálogo intergeracional ajuda a reduzir a distância entre quem nasceu conectado e quem precisou aprender a lidar com o digital já na vida adulta, criando um ambiente mais propício à orientação contínua, e não apenas a regras impostas.

Na rotina familiar, o impacto aparece em pequenas mudanças práticas: senhas passam a ser discutidas, mensagens suspeitas deixam de ser ignoradas e o uso do celular vira assunto recorrente à mesa ou antes de dormir. Ao transformar conceitos técnicos em histórias e exemplos do cotidiano, o conteúdo infantil deixa de ser apenas educativo para as crianças e se converte em ferramenta de alfabetização digital para toda a família, reforçando a ideia de que segurança online não é tarefa individual, mas um aprendizado construído em conjunto.

 

Daniel

Sobre Daniel Meirelles
Daniel Meirelles é gestor sênior de tecnologia, com mais de 20 anos de experiência em Segurança da Informação, com atuação destacada no setor financeiro brasileiro. Especialista em Transformação Digital e Inteligência Artificial Generativa pelo MIT e certificado em Cybersecurity pela ISC2, construiu carreira voltada à proteção de dados, governança digital e mitigação de riscos cibernéticos. É coautor e idealizador do projeto O Cibernauta, criado a partir da vivência como pai e da preocupação com a educação digital infantil.

Para saber mais, acesse o Linkedin ou pelo site.

 

Eduardo



Sobre Eduardo Argollo
Eduardo Argollo é economista, com mestrado em Administração de Empresas pela Université de Bordeaux, e acumula mais de 17 anos de experiência em grandes organizações nacionais e internacionais dos setores de gestão, saúde e seguros. Atuou em posições de liderança em projetos estratégicos, PMO e processos de integração pós-aquisição em empresas como PwC, Vale, Rede D’Or São Luiz, DaVita, Grupo H+, Oncoclínicas, entre outras. Coautor e idealizador do projeto O Cibernauta, contribui com a visão de gestão, educação e impacto social voltada à formação de cidadãos digitais desde a infância.

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Créditos: Carolina Lara


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